ORATÓRIA SECULAR E ORATÓRIA SACRA
“A oratória é a rainha das artes, e o orador, o rei dos artistas!” Alves Mendes
Desde os tempos bíblicos, a arte da oratória teve papel de destaque na vida dos povos antigos. Os profetas hebreus eram verdadeiros artistas da palavra, cada um deles com sua especialidade. Isaías, por exemplo, era mestre no uso de figuras de linguagem e fina ironia. Jeremias enchia os discursos de emoção, como se pode ver em suas Lamentações. Malaquias era hábil no uso de perguntas retóricas. Cristo falava com autoridade, e Paulo era um orador erudito.
Do ponto de vista clássico, a oratória surgiu com Corácio, grego de Siracusa, que viveu cinco séculos antes de Cristo. Ao longo da história, a oratória teve grandes expoentes. Na Grécia antiga,, era ensinada pelos filósofos e praticada nos debates intelectuais e jurídicos. De todos os oradores gregos, Demóstenes foi o maior. Entre os romanos, a oratória era praticada por juristas e políticos e teve Cícero o seu expoente mais famoso.
De forma geral a oratória divide-se em: sacra e secular. Em nosso estudo vamos ver como os princípios gerais da comunicação se aplicam à oratória sacra, também chamada nos cursos de teologia de homilética.
Tanto na oratória secular como na sacra foi-se o tempo em que ser orador era falar bonito e gritar. Nessa fase da oratória estética e sonora, os melhores oradores eram os que falavam forte e com frases enfeitadas. Mas essa época já passou há muito tempo, embora alguns oradores de hoje ainda permaneçam ingenuamente nessa fase. Entre esses “ingênuos”, as maiores vítimas são os políticos e pregadores, alguns dos quais abusam da paciência dos ouvintes.
Hoje o que importa não é o volume ou o enfeite, mas o conteúdo e a forma. Pode-se falar muito bonito e não dizer absolutamente nada. Falar bonito é fácil. Difícil é comunicar uma idéia. A oratória de hoje resume-se em três passos: ter uma idéia, organizá-la e transmiti-la.
ELEMENTOS DA ORATÓRIA
A oratória é arte e ciência ao mesmo tempo. Uma arte porque requer criatividade, e uma ciência porque exige o conhecimento de técnicas e princípios. É a obra da natureza, da arte e da prática, segundo os antigos. Vejamos a seguir alguns elementos indispensáveis à boa oratória.
EFICIÊNCIA - A eficiência é a característica básica da oratória moderna. Ou seja, para ter sucesso, a oratória tem de atingir determinada finalidade. A oratória de hoje se caracteriza por objetividade, concisão, simplicidade e praticabilidade, em contraste com grandiloqüência, verbosidade e linguagem quase poética do passado.
Cristo revolucionou a oratória de seu tempo, porque viveu na época da verbosidade e utilizou a objetividade e a simplicidade de hoje. Pode-se dizer que foi o precursor da oratória moderna.
RETÓRICA - Retórica é a arte de ordenar o discurso. É a capacidade de organizar as idéias e os argumentos. Sem retórica o discurso fica uma salada, com idéias repetidas ou fora de lugar. Quanto mais retórica, mais claro e convincente ficará o discurso.
ELOQUÊNCIA – Eloqüência é a arte de persuadir. Ser eloqüente é fazer um discurso bem sucedido, que alcance os objetivos. No passado ser eloqüente era fazer um discurso sofisticado. Hoje, a eloqüência está mais ligada à simplicidade e à naturalidade. Leon Fletcher menciona dois segredos que levam os oradores profissionais a ter sucesso na eloqüência:
1. Não tentar imitar nenhuma outra pessoa, mas ser um orador com personalidade própria, independente e natural. SEJA VOCÊ MESMO.
2. Não fazer nenhum discurso sem se preparar devidamente. Afinal de contas: “A eloqüência consiste em dizer tudo o que deveria ser dito, e não tudo o que poderia ser dito”. TOME O TEMPO NECESSÁRIO PARA PREPARAR-SE.
1. A PREGAÇÃO BÍBLICA
A pregação bíblica é um milagre duplo. O primeiro milagre é Deus usar um homem imperfeito, pecador e cheio de defeitos para transmitir a perfeita e infalível Palavra de Deus. Trata-se de um Ser perfeito usando um ser imperfeito como seu porta-voz. Só um milagre pode tornar isso possível. O segundo milagre é Deus fazer com que os ouvintes aceitarem o porta-voz imperfeito, escutarem a mensagem por intermédio do pecador e finalmente sejam transformados por essa mensagem. Esse é o grande milagre da pregação!
Ao iniciar um estudo sobre os princípios técnicos para uma boa pregação, algo deve ser dito: as técnicas são indispensáveis, até porque foram pesquisadas em diversos autores considerados especialistas no assunto e são comprovadas pela experiência de pregadores bem sucedidos. Contudo, uma coisa precisa ficar muito clara: todas as técnicas reunidas e colocadas em prática não fazem de alguém um pregador. Para ser um bom pregador é preciso ter técnica e algo mais. Esse algo mais é o milagre do Espírito Santo.
Aos quarenta anos de idade, Moisés conhecia todas as técnicas dos mais variados ramos do conhecimento humano, inclusive da arte de falar em público em diferentes línguas. Anos depois, quando Deus o desafiou a tornar-se pregador, o erudito Moisés respondeu: “Ah! Senhor! Eu nunca fui eloqüente...” (Ex 4:10). Faltava a Moisés algo mais: o milagre! Foi esse milagre que Deus lhe ofereceu quando disse: “Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca, e te ensinarei o que hás de falar” (4:12). Mesmo com relutância, Moisés aceitou o milagre e tornou-se pregador e líder.
Isto é pregação: um poderoso milagre de Deus, o infinito fluindo por via finita, o perfeito chegando até nós por meio do imperfeito, a santidade sendo transmitida através de pecadores e isso tem o poder de transformar outros pecadores.
2. QUALIDADES DO PREGADOR
“A boca fala do que o coração está cheio” Jesus Cristo
Jesus Cristo resumiu numa frase todo o segredo do pode de um orador sacro: o coração! No caso do orador, como de qualquer outro profissional, o que dá poder e autoridade é o que a pessoa é, não que ela faz ou como o faz. Aqui está a razão por que tantas pessoas talentosas não conseguem ir muito longe no sucesso pessoal. É bom ter treinamento, cursos de técnica e de qualidade total, mas nada adianta ter todo o conhecimento intelectual se o coração estiver vazio. Não adianta enfeitar o exterior se o interior está vazio.
O bom orador, especialmente o pregador, precisa ter qualidades técnicas e um estilo de vida elevado. Juntas, essas qualidades lhe darão estrutura pessoal. Vejamos algumas dessas qualidades.
CARÁTER – O orador precisa “ser dotado, principalmente, de qualidades morais, de honestidade, critério e integridade a fim de que suas palavras e ações mereçam crédito e possam comunicar, com sinceridade, ao auditório, a verdade, o bem e o belo” ¹. Ninguém quer ouvir um orador mentiroso e desonesto. Para ser cativante, o orador precisa ter um caráter atraente e respeitável.
ENTUSIASMO – O entusiasmo é o combustível da expressão verbal. O orador precisa vibrar em cada afirmação e empolgar-se com cada idéia. Se a idéia não empolgar o orador, não merece ser dita, e nunca irá empolgar o auditório. Para falar com entusiasmo é preciso viver com entusiasmo. Somente com entusiasmo consegue-se realizar grandes coisas, e é ele o responsável pelas grandes façanhas da humanidade.
DETERMINAÇÃO – Determinação é a vontade indomável d conseguir o que se pretende. Resolva falar bem e tire tempo para se preparar até conseguir. Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica, atribuía seu sucesso a 1% de inspiração e 99% de transpiração. É preciso lutar pelo que se deseja. Se não houver determinação na vida, não vai haver determinação no púlpito.
INSPIRAÇÃO – É a forma como o orador cria o discurso. É a busca de melhores idéias. No discurso secular, a inspiração é natural. No sermão, ela é sobrenatural. É a iluminação que brilha da comunhão com Deus, do estudo intenso da Bíblia, do senso de ser porta-voz da Divindade, da sensação de ter uma idéia de origem divina. Também é importante que a vida do pregador seja inspiração para os outros, pois isso contribuirá para que suas idéias dêem inspiração.
CAPACIDADE DE SÍNTESE – Ela habilita o orador a dizer tudo o que for preciso, somente o que for preciso, e nada mais do que preciso. Como é cansativo ouvir discursos ou sermões cheios de longas expressões que não acrescentam quase nada ao conteúdo. A melhor comunicação é a que expressa mais idéias com menos palavras.
IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE – A imaginação é a ferramenta da criatividade. É a capacidade de criar imagens agradáveis para tornar os argumentos mais vivos e convincentes. Em vez de dizer as coisas do mesmo jeito que todo mundo diz, imagine uma forma diferente para torná-las interessantes. A maior fonte de imaginação é a própria Bíblia. Cristo era um artista na capacidade de imaginar. Lembra-se da parábola da ovelha perdida?
MEMÓRIA – O orador tem necessidade de cultivar a memória. Não precisa ser um gênio para se habituar a memorizar coisas essenciais. Também não há necessidade de decorar discursos ou sermões, o que aliás é desaconselhável. Mas uma coisa é indispensável ao orador: ter sempre em mente a finalidade do discurso e a ordem das idéias. Ter a sequência na cabeça também ajuda a não ficar muito preso ao papel.
BOA APARÊNCIA – Nenhum orador precisa ser modelo fotográfico ou capa de revista, mas deve cuidar para que sua aparência não atrapalhe. Lêmbre-se: boa aparência ajuda a causar boa impressão.
VOCABULÁRIO – O melhor vocabulário é o que se adapta a qualquer auditório. Deve ser amplo e variado, mas simples e claro para que qualquer pessoa consiga entender. Sempre evite a vulgaridade, a gíria, a sofisticação e palavras técnicas, como escatologia e pneumatologia, por exemplo. A melhor maneira de enriquecer o vocabulário é praticar o hábito da leitura constante.
HUMILDADE – Acima de qualquer coisa, o pregador deve ter consciência de sua total dependência de deus para o cumprimento de sua missão. Por isso, nunca assuma o ar de que é dono da verdade ou a estrela de primeira grandeza. Um espírito sereno e humilde acrescenta poder à mensagem da mesma forma que a arrogância destrói o poder. Mas lembre-se mais uma vez: para ser humilde no púlpito é preciso ser humilde na vida pessoal e no relacionamento com as pessoas.
3. A FONTE DE INFORMAÇÕES DO PREGADOR
“A pregação é a manifestação do Verbo encarnado, a partir do verbo escrito, por meio do verbo falado.” (Bernard Manning)
“Deus falou!” Esse é o fundamento da pregação bíblica. A Bíblia testifica de si mesma como a palavra escrita de Deus. Só no Antigo Testamento, frases como “o Senhor disse”, “o Senhor falou” e “veio a palavra do Senhor” aparecem pelo menos 3.808 vezes. A pregação é, acima de tudo, o testemunho do Deus que fala, do Filho que salva e do Espírito que ilumina.²
Aqui se delineia toda a teologia da pregação. O pregador recebe a autoridade de Deus pela Palavra e faz-se responsável pela Palavra. Por isso, ele não tem o direito de pregar nada que não seja a Palavra de Deus. E ai dele se negligenciar ou vulgarizar o uso da Palavra!
4. O ESTILO DO PREGADOR
O que mais determina o estilo do sermão é o próprio homem. Estilo é a própria pessoa em si. Segundo Killinger, o estilo é a assinatura do pregador no sermão. É a combinação de ritmo, metáfora, dicção, voz, pausa e tudo o mais que coloca a estampa individual do pregador no sermão. Isso significa que o estilo é uma propriedade individual tão íntima e peculiar que não pode ser imitada. Você pode até aprender com o estilo de outro pregador, mas nunca copiá-lo. É Impossível tentar copiar o estilo de outro sem ser artificial, e o público vai perceber que o pregador não passa de um ator de palco.
O sábio Salomão conhecia muito bem o segredo de um estilo por trás das palavras. Foi por isso que ele disse: “Procurou o pregador achar palavras agradáveis, e escrever com retidão palavras de verdade” (Ec 12:10).
Notas
¹ Oratória Eficiente de Hoje, p. 26.
² Michael Duduit, organizador, Handbook of Contemporary Preaching (Nashiville, Broasman Press, 1992), p. 14-15.
5. DICAS IMPORTANTES PARA FALAR EM PÚBLICO
1. Prepare-se para falar.
2. Não confie em discursos de improviso, a não ser que já tenha boa experiência.
3. Seja o mais natural possível. A naturalidade pode ser considerada a melhor regra da boa comunicação.
4. Não confie na memória, leve um roteiro (esboço) como apoio.
5. Use uma linguagem correta. Nossos ouvintes estão cada vez mais exigentes e cultos, portanto, o pregador não pode se dar ao luxo de escorregar na gramática.
- Pratique leitura: “Quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê”
- Evite a exibição de conhecimento próprio. Seu conhecimento intelectual fluirá naturalmente no decorrer do discurso sem que seja necessário forçar.
- Correto uso dos pronomes pessoais: ex: “Nós é”; EU/me; TU/te; ELE/se; NÓS/nos; VÓS/vos; ELES/se.
- Correto uso dos pronomes relativos: ex: “Jesus, a qual morreu...” correto: “Jesus, o qual morreu...”
- Omissão de consoantes: “R” (problema); “S” (Rodrigues Alves)
- Conjugação verbal: “Nós vamo” (Nós vamos), “Eles foi” (Eles foram), “Pra nóis ir” (Pra irmos); “a rente” (a gente)...
- Evite o uso de pleonasmos viciosos: “entrar para dento”; “descer para baixo”
- Evite os vícios de linguagem: “né?”; “tá?”; “entendeu?”; “ã” e vários outros. Como corrigir? Ouvindo o que você fala, tendo consciência de seus vícios e buscando outras palavras em substituição ou simplesmente omitindo as palavras indesejáveis.
6. O cuidado com o uso de recursos audiovisuais:
- Em suas transparências projete apenas a essência da mensagem em poucas palavras. O ideal é escrever tópicos e sub-tópicos ou frases de efeito. Evite textos grandes e também letras muito pequenas, pois isso dificultará a leitura e torna o discurso enfadonho.
- Se vai utilizar filmes, certifique-se com antecedência para ter certeza que vai funcionar.
- Evite de passar em frente da projeção, isso é anti-didático.
7. Cuidado com a postura:
- Mantenha a postura física correta.
- Cuidado com o andar no palco.
- Seja moderado na gesticulação.
8. Cuidados com a fala:
- Fale de maneira calma e pausadamente para facilitar a pronúncia correta das palavras.
- Moderar a altura e a intensidade da voz;
- Cuidado com a utilização do microfone: o ideal é usá-lo a uma distância de cerca de 10 cm da boca.
BIBLIOGRAFIA
Leon Fletcher, Como Falar como um Profissional (Rio de Janeiro, editora Record, 1983), p. 15-16.
Duane Litfin, Public Speaking (Grand Rapids, Baker Book House, 1992), p. 114.
Lloyd-Jones, Dr. Martyn, Pregação & Pregadores. - São José dos Campos: Editora Fiel, 1998.
Marinho, Robson Moura, A arte de pregar: a comunicação na homilética. - São Paulo: Vida Nova, 1999.
“A oratória é a rainha das artes, e o orador, o rei dos artistas!” Alves Mendes
Desde os tempos bíblicos, a arte da oratória teve papel de destaque na vida dos povos antigos. Os profetas hebreus eram verdadeiros artistas da palavra, cada um deles com sua especialidade. Isaías, por exemplo, era mestre no uso de figuras de linguagem e fina ironia. Jeremias enchia os discursos de emoção, como se pode ver em suas Lamentações. Malaquias era hábil no uso de perguntas retóricas. Cristo falava com autoridade, e Paulo era um orador erudito.
Do ponto de vista clássico, a oratória surgiu com Corácio, grego de Siracusa, que viveu cinco séculos antes de Cristo. Ao longo da história, a oratória teve grandes expoentes. Na Grécia antiga,, era ensinada pelos filósofos e praticada nos debates intelectuais e jurídicos. De todos os oradores gregos, Demóstenes foi o maior. Entre os romanos, a oratória era praticada por juristas e políticos e teve Cícero o seu expoente mais famoso.
De forma geral a oratória divide-se em: sacra e secular. Em nosso estudo vamos ver como os princípios gerais da comunicação se aplicam à oratória sacra, também chamada nos cursos de teologia de homilética.
Tanto na oratória secular como na sacra foi-se o tempo em que ser orador era falar bonito e gritar. Nessa fase da oratória estética e sonora, os melhores oradores eram os que falavam forte e com frases enfeitadas. Mas essa época já passou há muito tempo, embora alguns oradores de hoje ainda permaneçam ingenuamente nessa fase. Entre esses “ingênuos”, as maiores vítimas são os políticos e pregadores, alguns dos quais abusam da paciência dos ouvintes.
Hoje o que importa não é o volume ou o enfeite, mas o conteúdo e a forma. Pode-se falar muito bonito e não dizer absolutamente nada. Falar bonito é fácil. Difícil é comunicar uma idéia. A oratória de hoje resume-se em três passos: ter uma idéia, organizá-la e transmiti-la.
ELEMENTOS DA ORATÓRIA
A oratória é arte e ciência ao mesmo tempo. Uma arte porque requer criatividade, e uma ciência porque exige o conhecimento de técnicas e princípios. É a obra da natureza, da arte e da prática, segundo os antigos. Vejamos a seguir alguns elementos indispensáveis à boa oratória.
EFICIÊNCIA - A eficiência é a característica básica da oratória moderna. Ou seja, para ter sucesso, a oratória tem de atingir determinada finalidade. A oratória de hoje se caracteriza por objetividade, concisão, simplicidade e praticabilidade, em contraste com grandiloqüência, verbosidade e linguagem quase poética do passado.
Cristo revolucionou a oratória de seu tempo, porque viveu na época da verbosidade e utilizou a objetividade e a simplicidade de hoje. Pode-se dizer que foi o precursor da oratória moderna.
RETÓRICA - Retórica é a arte de ordenar o discurso. É a capacidade de organizar as idéias e os argumentos. Sem retórica o discurso fica uma salada, com idéias repetidas ou fora de lugar. Quanto mais retórica, mais claro e convincente ficará o discurso.
ELOQUÊNCIA – Eloqüência é a arte de persuadir. Ser eloqüente é fazer um discurso bem sucedido, que alcance os objetivos. No passado ser eloqüente era fazer um discurso sofisticado. Hoje, a eloqüência está mais ligada à simplicidade e à naturalidade. Leon Fletcher menciona dois segredos que levam os oradores profissionais a ter sucesso na eloqüência:
1. Não tentar imitar nenhuma outra pessoa, mas ser um orador com personalidade própria, independente e natural. SEJA VOCÊ MESMO.
2. Não fazer nenhum discurso sem se preparar devidamente. Afinal de contas: “A eloqüência consiste em dizer tudo o que deveria ser dito, e não tudo o que poderia ser dito”. TOME O TEMPO NECESSÁRIO PARA PREPARAR-SE.
1. A PREGAÇÃO BÍBLICA
A pregação bíblica é um milagre duplo. O primeiro milagre é Deus usar um homem imperfeito, pecador e cheio de defeitos para transmitir a perfeita e infalível Palavra de Deus. Trata-se de um Ser perfeito usando um ser imperfeito como seu porta-voz. Só um milagre pode tornar isso possível. O segundo milagre é Deus fazer com que os ouvintes aceitarem o porta-voz imperfeito, escutarem a mensagem por intermédio do pecador e finalmente sejam transformados por essa mensagem. Esse é o grande milagre da pregação!
Ao iniciar um estudo sobre os princípios técnicos para uma boa pregação, algo deve ser dito: as técnicas são indispensáveis, até porque foram pesquisadas em diversos autores considerados especialistas no assunto e são comprovadas pela experiência de pregadores bem sucedidos. Contudo, uma coisa precisa ficar muito clara: todas as técnicas reunidas e colocadas em prática não fazem de alguém um pregador. Para ser um bom pregador é preciso ter técnica e algo mais. Esse algo mais é o milagre do Espírito Santo.
Aos quarenta anos de idade, Moisés conhecia todas as técnicas dos mais variados ramos do conhecimento humano, inclusive da arte de falar em público em diferentes línguas. Anos depois, quando Deus o desafiou a tornar-se pregador, o erudito Moisés respondeu: “Ah! Senhor! Eu nunca fui eloqüente...” (Ex 4:10). Faltava a Moisés algo mais: o milagre! Foi esse milagre que Deus lhe ofereceu quando disse: “Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca, e te ensinarei o que hás de falar” (4:12). Mesmo com relutância, Moisés aceitou o milagre e tornou-se pregador e líder.
Isto é pregação: um poderoso milagre de Deus, o infinito fluindo por via finita, o perfeito chegando até nós por meio do imperfeito, a santidade sendo transmitida através de pecadores e isso tem o poder de transformar outros pecadores.
2. QUALIDADES DO PREGADOR
“A boca fala do que o coração está cheio” Jesus Cristo
Jesus Cristo resumiu numa frase todo o segredo do pode de um orador sacro: o coração! No caso do orador, como de qualquer outro profissional, o que dá poder e autoridade é o que a pessoa é, não que ela faz ou como o faz. Aqui está a razão por que tantas pessoas talentosas não conseguem ir muito longe no sucesso pessoal. É bom ter treinamento, cursos de técnica e de qualidade total, mas nada adianta ter todo o conhecimento intelectual se o coração estiver vazio. Não adianta enfeitar o exterior se o interior está vazio.
O bom orador, especialmente o pregador, precisa ter qualidades técnicas e um estilo de vida elevado. Juntas, essas qualidades lhe darão estrutura pessoal. Vejamos algumas dessas qualidades.
CARÁTER – O orador precisa “ser dotado, principalmente, de qualidades morais, de honestidade, critério e integridade a fim de que suas palavras e ações mereçam crédito e possam comunicar, com sinceridade, ao auditório, a verdade, o bem e o belo” ¹. Ninguém quer ouvir um orador mentiroso e desonesto. Para ser cativante, o orador precisa ter um caráter atraente e respeitável.
ENTUSIASMO – O entusiasmo é o combustível da expressão verbal. O orador precisa vibrar em cada afirmação e empolgar-se com cada idéia. Se a idéia não empolgar o orador, não merece ser dita, e nunca irá empolgar o auditório. Para falar com entusiasmo é preciso viver com entusiasmo. Somente com entusiasmo consegue-se realizar grandes coisas, e é ele o responsável pelas grandes façanhas da humanidade.
DETERMINAÇÃO – Determinação é a vontade indomável d conseguir o que se pretende. Resolva falar bem e tire tempo para se preparar até conseguir. Thomas Edison, inventor da lâmpada elétrica, atribuía seu sucesso a 1% de inspiração e 99% de transpiração. É preciso lutar pelo que se deseja. Se não houver determinação na vida, não vai haver determinação no púlpito.
INSPIRAÇÃO – É a forma como o orador cria o discurso. É a busca de melhores idéias. No discurso secular, a inspiração é natural. No sermão, ela é sobrenatural. É a iluminação que brilha da comunhão com Deus, do estudo intenso da Bíblia, do senso de ser porta-voz da Divindade, da sensação de ter uma idéia de origem divina. Também é importante que a vida do pregador seja inspiração para os outros, pois isso contribuirá para que suas idéias dêem inspiração.
CAPACIDADE DE SÍNTESE – Ela habilita o orador a dizer tudo o que for preciso, somente o que for preciso, e nada mais do que preciso. Como é cansativo ouvir discursos ou sermões cheios de longas expressões que não acrescentam quase nada ao conteúdo. A melhor comunicação é a que expressa mais idéias com menos palavras.
IMAGINAÇÃO E CRIATIVIDADE – A imaginação é a ferramenta da criatividade. É a capacidade de criar imagens agradáveis para tornar os argumentos mais vivos e convincentes. Em vez de dizer as coisas do mesmo jeito que todo mundo diz, imagine uma forma diferente para torná-las interessantes. A maior fonte de imaginação é a própria Bíblia. Cristo era um artista na capacidade de imaginar. Lembra-se da parábola da ovelha perdida?
MEMÓRIA – O orador tem necessidade de cultivar a memória. Não precisa ser um gênio para se habituar a memorizar coisas essenciais. Também não há necessidade de decorar discursos ou sermões, o que aliás é desaconselhável. Mas uma coisa é indispensável ao orador: ter sempre em mente a finalidade do discurso e a ordem das idéias. Ter a sequência na cabeça também ajuda a não ficar muito preso ao papel.
BOA APARÊNCIA – Nenhum orador precisa ser modelo fotográfico ou capa de revista, mas deve cuidar para que sua aparência não atrapalhe. Lêmbre-se: boa aparência ajuda a causar boa impressão.
VOCABULÁRIO – O melhor vocabulário é o que se adapta a qualquer auditório. Deve ser amplo e variado, mas simples e claro para que qualquer pessoa consiga entender. Sempre evite a vulgaridade, a gíria, a sofisticação e palavras técnicas, como escatologia e pneumatologia, por exemplo. A melhor maneira de enriquecer o vocabulário é praticar o hábito da leitura constante.
HUMILDADE – Acima de qualquer coisa, o pregador deve ter consciência de sua total dependência de deus para o cumprimento de sua missão. Por isso, nunca assuma o ar de que é dono da verdade ou a estrela de primeira grandeza. Um espírito sereno e humilde acrescenta poder à mensagem da mesma forma que a arrogância destrói o poder. Mas lembre-se mais uma vez: para ser humilde no púlpito é preciso ser humilde na vida pessoal e no relacionamento com as pessoas.
3. A FONTE DE INFORMAÇÕES DO PREGADOR
“A pregação é a manifestação do Verbo encarnado, a partir do verbo escrito, por meio do verbo falado.” (Bernard Manning)
“Deus falou!” Esse é o fundamento da pregação bíblica. A Bíblia testifica de si mesma como a palavra escrita de Deus. Só no Antigo Testamento, frases como “o Senhor disse”, “o Senhor falou” e “veio a palavra do Senhor” aparecem pelo menos 3.808 vezes. A pregação é, acima de tudo, o testemunho do Deus que fala, do Filho que salva e do Espírito que ilumina.²
Aqui se delineia toda a teologia da pregação. O pregador recebe a autoridade de Deus pela Palavra e faz-se responsável pela Palavra. Por isso, ele não tem o direito de pregar nada que não seja a Palavra de Deus. E ai dele se negligenciar ou vulgarizar o uso da Palavra!
4. O ESTILO DO PREGADOR
O que mais determina o estilo do sermão é o próprio homem. Estilo é a própria pessoa em si. Segundo Killinger, o estilo é a assinatura do pregador no sermão. É a combinação de ritmo, metáfora, dicção, voz, pausa e tudo o mais que coloca a estampa individual do pregador no sermão. Isso significa que o estilo é uma propriedade individual tão íntima e peculiar que não pode ser imitada. Você pode até aprender com o estilo de outro pregador, mas nunca copiá-lo. É Impossível tentar copiar o estilo de outro sem ser artificial, e o público vai perceber que o pregador não passa de um ator de palco.
O sábio Salomão conhecia muito bem o segredo de um estilo por trás das palavras. Foi por isso que ele disse: “Procurou o pregador achar palavras agradáveis, e escrever com retidão palavras de verdade” (Ec 12:10).
Notas
¹ Oratória Eficiente de Hoje, p. 26.
² Michael Duduit, organizador, Handbook of Contemporary Preaching (Nashiville, Broasman Press, 1992), p. 14-15.
5. DICAS IMPORTANTES PARA FALAR EM PÚBLICO
1. Prepare-se para falar.
2. Não confie em discursos de improviso, a não ser que já tenha boa experiência.
3. Seja o mais natural possível. A naturalidade pode ser considerada a melhor regra da boa comunicação.
4. Não confie na memória, leve um roteiro (esboço) como apoio.
5. Use uma linguagem correta. Nossos ouvintes estão cada vez mais exigentes e cultos, portanto, o pregador não pode se dar ao luxo de escorregar na gramática.
- Pratique leitura: “Quem não lê, mal fala, mal ouve e mal vê”
- Evite a exibição de conhecimento próprio. Seu conhecimento intelectual fluirá naturalmente no decorrer do discurso sem que seja necessário forçar.
- Correto uso dos pronomes pessoais: ex: “Nós é”; EU/me; TU/te; ELE/se; NÓS/nos; VÓS/vos; ELES/se.
- Correto uso dos pronomes relativos: ex: “Jesus, a qual morreu...” correto: “Jesus, o qual morreu...”
- Omissão de consoantes: “R” (problema); “S” (Rodrigues Alves)
- Conjugação verbal: “Nós vamo” (Nós vamos), “Eles foi” (Eles foram), “Pra nóis ir” (Pra irmos); “a rente” (a gente)...
- Evite o uso de pleonasmos viciosos: “entrar para dento”; “descer para baixo”
- Evite os vícios de linguagem: “né?”; “tá?”; “entendeu?”; “ã” e vários outros. Como corrigir? Ouvindo o que você fala, tendo consciência de seus vícios e buscando outras palavras em substituição ou simplesmente omitindo as palavras indesejáveis.
6. O cuidado com o uso de recursos audiovisuais:
- Em suas transparências projete apenas a essência da mensagem em poucas palavras. O ideal é escrever tópicos e sub-tópicos ou frases de efeito. Evite textos grandes e também letras muito pequenas, pois isso dificultará a leitura e torna o discurso enfadonho.
- Se vai utilizar filmes, certifique-se com antecedência para ter certeza que vai funcionar.
- Evite de passar em frente da projeção, isso é anti-didático.
7. Cuidado com a postura:
- Mantenha a postura física correta.
- Cuidado com o andar no palco.
- Seja moderado na gesticulação.
8. Cuidados com a fala:
- Fale de maneira calma e pausadamente para facilitar a pronúncia correta das palavras.
- Moderar a altura e a intensidade da voz;
- Cuidado com a utilização do microfone: o ideal é usá-lo a uma distância de cerca de 10 cm da boca.
BIBLIOGRAFIA
Leon Fletcher, Como Falar como um Profissional (Rio de Janeiro, editora Record, 1983), p. 15-16.
Duane Litfin, Public Speaking (Grand Rapids, Baker Book House, 1992), p. 114.
Lloyd-Jones, Dr. Martyn, Pregação & Pregadores. - São José dos Campos: Editora Fiel, 1998.
Marinho, Robson Moura, A arte de pregar: a comunicação na homilética. - São Paulo: Vida Nova, 1999.
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